Acessibilidade digital: Prefeitura de Leme explica o uso do “Para cego ver”
Primeira matéria de uma série sobre acessibilidade explica como a descrição de imagens facilita o acesso à informação; recurso já é adotado há mais de um ano nas publicações oficiais
A Prefeitura do Município de Leme, por meio da Secretaria de Comunicação Social, vem adotando recursos de acessibilidade em seus canais de comunicação, entre eles a descrição de imagens, conhecida popularmente pela expressão “Para cego ver”. A iniciativa busca ampliar o acesso às informações divulgadas pela Prefeitura, permitindo que pessoas com deficiência visual também compreendam o conteúdo de fotografias, cartazes e outros materiais publicados na internet.
A acessibilidade digital, porém, vai além da descrição de imagens. O portal oficial da Prefeitura disponibiliza uma página específica com informações sobre recursos como alto contraste, ampliação da página, tradução de conteúdos para a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e leitores de tela. Essas ferramentas e orientações contribuem para que pessoas com diferentes necessidades possam acessar conteúdos e serviços digitais.
Para explicar como esses recursos funcionam e por que são importantes, a Secretaria de Comunicação Social inicia uma série de matérias sobre acessibilidade digital. Nesta primeira publicação, o tema é a descrição de imagens: como ela funciona, de que maneira ajuda pessoas cegas ou com baixa visão e quais cuidados devem ser adotados para que as informações visuais também estejam disponíveis em formato textual.
O que significa “Para cego ver”?
A expressão ficou conhecida no Brasil como uma forma de identificar a descrição textual de imagens publicadas na internet, principalmente nas redes sociais. A ideia é simples: explicar por escrito o que aparece em uma imagem, permitindo que a informação visual também possa ser compreendida por pessoas cegas ou com baixa visão.
Imagine, por exemplo, uma publicação sobre uma campanha de vacinação. A arte pode apresentar o nome da campanha, o público atendido, as datas e os locais de vacinação. Uma pessoa que enxerga consegue consultar essas informações diretamente na imagem. Já uma pessoa que utiliza um leitor de tela precisa que o conteúdo esteja disponível em formato textual acessível.
A descrição pode informar o que aparece na imagem e reproduzir os dados necessários para compreender a publicação. Se houver datas, endereços, telefones ou orientações importantes, essas informações também precisam estar disponíveis em texto.
Atenção à diferença entre as expressões
A expressão “Para cego ver”, utilizada na acessibilidade digital, não deve ser confundida com comandos ou instruções de inteligência artificial generativa, que podem circular na internet e ser reproduzidos por meio de copiar e colar. No contexto da acessibilidade, ela identifica uma descrição textual de imagem, elaborada para permitir que pessoas com deficiência visual tenham acesso ao conteúdo visual de uma publicação. Já os chamados prompts são instruções fornecidas a ferramentas de inteligência artificial para orientar a produção de textos, imagens ou outros conteúdos. Portanto, são recursos com finalidades diferentes: um busca ampliar o acesso à informação; o outro orienta o funcionamento de uma ferramenta de IA.
Como funciona a descrição de imagens?
Existem duas formas importantes de disponibilizar essa informação: o texto alternativo da imagem, conhecido como texto alternativo ou alt text, e a descrição escrita na legenda da publicação.
O texto alternativo é um recurso disponível em sites e em diversas redes sociais. Ele permite inserir uma descrição associada diretamente à imagem. Quando a pessoa utiliza um leitor de tela, o programa pode ler esse texto, possibilitando o acesso ao conteúdo visual sem que seja necessário enxergar a imagem.
Já a descrição na legenda é um texto visível para todos os usuários. Ela pode ser introduzida por expressões como “Descrição da imagem:” ou “Para cego ver:”, seguidas da explicação do conteúdo visual.
A legenda descritiva é útil, especialmente quando a plataforma não oferece um campo próprio para texto alternativo. Entretanto, sempre que esse recurso estiver disponível, é recomendável utilizá-lo. A simples inclusão da expressão “Para cego ver” não torna uma imagem acessível: o mais importante é que a descrição seja clara, esteja disponível em formato textual e transmita as informações relevantes.
As orientações do Modelo de Acessibilidade em Governo Eletrônico (eMAG), do governo brasileiro, e do World Wide Web Consortium (W3C), organização internacional que desenvolve padrões para a Web, recomendam alternativas textuais adequadas para imagens que transmitem informações. A descrição deve considerar o conteúdo e a finalidade da imagem, e não apenas informar que se trata de uma fotografia ou ilustração.
O que diz a legislação?
A acessibilidade à informação está amparada por normas brasileiras e por compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. Essas normas não determinam o uso obrigatório da expressão “Para cego ver”, mas estabelecem princípios e obrigações relacionados ao acesso das pessoas com deficiência à informação e à comunicação.
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), em seu artigo 63, estabelece a obrigatoriedade de acessibilidade nos sites mantidos por empresas com sede ou representação comercial no Brasil e por órgãos de governo, garantindo às pessoas com deficiência acesso às informações disponíveis, conforme as melhores práticas e diretrizes internacionais de acessibilidade.
Outro fundamento é a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada no Brasil pelo Decreto nº 6.949/2009. Em seu artigo 9º, a Convenção trata do acesso, em igualdade de oportunidades, à informação e à comunicação, incluindo tecnologias e sistemas de informação, como a internet.
Essas normas reforçam a importância de remover barreiras que dificultam ou impedem o acesso das pessoas com deficiência aos conteúdos e serviços digitais. A descrição de imagens é uma das medidas que contribuem para esse objetivo, embora a acessibilidade digital envolva outros recursos e cuidados.
Recomendações nacionais e internacionais
No Brasil, o Modelo de Acessibilidade em Governo Eletrônico (eMAG) orienta a criação e a adaptação de sites e portais governamentais para ampliar seu acesso pelo maior número possível de pessoas. Entre suas recomendações está o fornecimento de descrições para imagens que transmitam conteúdo, utilizando o texto alternativo quando apropriado.
No âmbito internacional, as Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web (WCAG), desenvolvidas pelo W3C, estabelecem que conteúdos não textuais relevantes devem contar com alternativas em texto que cumpram finalidade equivalente. A orientação abrange fotografias, ilustrações, gráficos, diagramas e imagens que contenham informações escritas.
As recomendações também destacam que a descrição deve ser adequada ao contexto. Uma fotografia simples pode precisar apenas de uma frase curta. Já um gráfico ou infográfico com muitos dados pode exigir uma explicação mais detalhada, com as informações apresentadas também em texto fora da imagem.
Essas orientações ajudam a evitar dois problemas comuns: descrições genéricas, que não explicam o conteúdo, e textos excessivamente longos, que dificultam a compreensão.
Como fazer uma boa descrição?
A descrição deve ser clara, objetiva e suficiente para transmitir a informação importante da imagem. Não é necessário descrever todos os detalhes visuais, mas sim aqueles que ajudam a compreender o conteúdo da publicação.
Algumas orientações práticas:
- Descreva o que é relevante: informe o que aparece na imagem e o que é importante para compreender a publicação.
- Use linguagem simples: prefira frases diretas, sem expressões desnecessárias ou termos difíceis.
- Inclua os textos importantes: se a imagem for um cartaz com data, horário, endereço ou telefone, essas informações precisam estar disponíveis em texto.
- Evite descrições genéricas: escrever apenas “foto de um evento” pode não ser suficiente. Sempre que relevante, informe qual evento é, o que está acontecendo e quem aparece na cena.
- Não acrescente informações que não estão na imagem: a descrição deve ser fiel ao conteúdo e não deve presumir nomes, intenções ou situações que não possam ser confirmadas.
- Evite repetições desnecessárias: se o texto da publicação já apresenta determinados dados, a descrição pode se concentrar no conteúdo visual complementar.
- Utilize o texto alternativo quando disponível: a legenda descritiva pode complementar o recurso, mas não deve ser considerada substituta automática dele.
Exemplos práticos
Fotografia de uma atividade pública
Descrição pouco informativa: “Foto de pessoas em um evento”.
Descrição mais adequada: “Servidores municipais orientam moradores durante uma ação de atendimento realizada em uma praça de Leme”.
Cartaz de divulgação
Descrição pouco informativa: “Cartaz azul e amarelo de um evento”.
Descrição mais adequada: “Cartaz de divulgação de evento cultural em Leme, com data, horário e local de realização informados na arte”.
Fotografia de uma autoridade durante um anúncio
Descrição pouco informativa: “Foto do prefeito”.
Descrição mais adequada: “Prefeito anuncia uma nova ação municipal durante entrevista, ao lado de representantes das secretarias envolvidas”.
Os exemplos são ilustrativos e devem ser adaptados ao conteúdo real de cada imagem. Quando houver informações importantes para o público, como prazos, locais de atendimento ou critérios para participar de um serviço, elas precisam ser reproduzidas de forma precisa.
Acessibilidade é compromisso com o acesso à informação
A adoção de recursos de acessibilidade digital pela Prefeitura de Leme há mais de um ano reforça a importância de considerar diferentes necessidades na produção e na divulgação de conteúdos públicos.
A descrição de imagens é uma medida prática que contribui para tornar a comunicação mais inclusiva. Ao publicar uma fotografia, um cartaz ou um informativo, é necessário considerar também quem acessa o conteúdo por meio de tecnologias assistivas.
O uso de texto alternativo e de descrições claras contribui para que pessoas com deficiência visual tenham mais autonomia para acompanhar notícias, consultar serviços e participar da vida da comunidade.
Mais do que adotar uma expressão específica, o objetivo é garantir que a informação chegue às pessoas de diferentes maneiras. A acessibilidade deve fazer parte do planejamento da comunicação desde a produção do conteúdo, para que o acesso à informação não dependa exclusivamente da capacidade de enxergar uma imagem.
Informações adicionais podem ser adquiridas na Secretaria de Comunicação Social, localizada na Rua Dr. Armando de Sales Oliveira, 1085 – 5º andar - Centro, ou pelo telefone 3097-1000.
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